Home / Blog / Quando bruxas assombram a ficção científica

*Por Ana Rüsche

A bruxa, um ícone central e muitas vezes definidor para os modos de narrar da fantasia, do maravilhoso e do gótico, pode despontar de forma espectral na ficção científica e contaminar narrativas de formas surpreendentes. A figura assombra a FC em arquétipos que alicerçam a história, serve de muro de arrimo para se construir personagens e se mostra útil para discutir o que é poder — contaminação que pode ser observada de Frankenstein a Duna Neuromancer.

A ficção científica parte de um questionamento sobre inovações tecnológicas em um exercício radical de imaginação — nas palavras de Darko Suvin, a “realidade irrealista”. A partir de ícones clássicos (robôs, naves espaciais, alienígenas, supercomputadores, androides), extrapola-se possibilidades tecnológicas que nem sempre são plausíveis no agora, embora estejam no horizonte das possibilidades imaginativas. Já o ícone da bruxa apontaria para tempos imemoriais, distantes das linhas de montagem fordista ou do invento da eletricidade. Entretanto, o que parece ser inegociável surge como amálgama criativo para alicerçar narrativas.

Em Sussex, bruxos ecléticos ingleses realizam um ritual concebido por eles mesmos, diante do Long Man of Wilmington [Homem Longilíneo de Wilmington].

Um dos artifícios utilizados pela FC ao tratar de fenômenos insólitos é mantê-los dentro das convenções estabelecidas de seu modo narrativo, principalmente ao cuidar de usar um vocabulário específico, conforme analisa Jörg Hienger (The uncanny and science fiction”, em Science Fiction Studies 18, 1979). Por exemplo, no despertar tétrico da criatura sem nome, o médico Victor Frankenstein não se utiliza de magia, e sim de eletricidade para conceder vida a seu monstro, experimento assemelhado aos de Luigi Galvani, professor de anatomia que investigou o papel da eletricidade no corpo humano, conhecido por estimular animais dissecados com corrente elétrica.

Frankenstein, 1931

Ao mesmo tempo, a narrativa de Mary Shelley assemelha-se a uma velha história que conhecemos: um aprendiz, ambicioso e inábil, não sabe respeitar as regras de um feitiço poderoso e passa a ser perseguido pelo que criou sem ter noção de quais consequências enfrentaria. Nesse livro, que para muita gente inaugura a ficção científica, a história clássica do “feitiço virou contra o feiticeiro” serve de alicerce para discutir, a partir do uso científico da eletricidade e do galvanismo, os limites da ambição tecnológica.

No livro Duna, Frank Herbert concede às integrantes da ordem Bene Gesserit poderes peculiares. A ordem, com traços religiosos e formada por mulheres treinadas desde a mais tenra infância, utiliza-se de poderes extrassensoriais das mais diferentes habilidades para estender tentáculos políticos. Pelo uso de comandos vocais, conseguem obrigar pessoas a executarem ações. São ainda capazes de lidar com venenos, idiomas e costumes com rapidez. No jogo político, controlam e se imiscuem nas linhagens nobres na tarefa de procriar dentro de padrões preestabelecidos, assegurando influência perene à ordem.

The Bene Gesserit, Dune (1984).

Construídas a partir do imaginário clássico do que seja uma “bruxa” no senso comum, nem mesmo a sensualidade perigosa lhes falta. Apesar do romance trazer certas explicações científicas a respeito de seus poderes, a narrativa pende ao lado mágico e sobrenatural, sugerindo uma contaminação do modo narrativo fantástico na ficção científica, o que torna Duna tão interessante. Em 2020, o diretor Denis Villeneuve (Arrival: a chegada e Blade Runner 2049) lança a nova adaptação cinematográfica de Duna e, segundo matéria de junho da Variety, também dirigirá outra adaptação a partir do mesmo universo, mas específica a respeito do poder das Bene Gesserit com Dune: the Sisterhood (Duna: a irmandade).

William Gibson também evoca alguns poderes. Em seu livro mais famoso, Neuromancer, o título é um neologismo que alude à figura do necromante, feiticeiro que evoca os mortos ou prediz o futuro, ao mesmo tempo em que o prefixo “neuro” estaria relacionado a nervos, energia, vigor, aspecto corporal e elétrico, uma mistura frankensteiniana de bruxaria e programação computacional. Na trama, Case, o caubói protagonista, convoca os mortos ao interagir com um espectro de Dixie Linha Reta, mentor falecido que lhe ensinou a profissão de hacker. Embora a narrativa procure justificar a tecnologia envolvida (a consciência de Linha Reta foi mantida em uma espécie de ROM — memória somente de leitura), o necromante caubói está ali dentro, fazendo evocações e invadindo o sistema, navegando pelo ciberespaço, quase uma instância cósmica.

Uma parte da capa de Neuromancer

Na história contemporânea: bruxaria e internet

Dessas relações todas entre ficção científica e bruxas, a mais surpreendente talvez seja a própria da realidade. Em História da bruxaria, Brooks Alexander e Jeffrey Burton Russell apontam um lado menos conhecido entre bruxaria e tecnologia.

Ao discorrerem sobre a construção do neopaganismo hoje, os dois historiadores ressaltam o fortalecimento da religião por meio da internet. No livro de caráter enciclopédico, sugerem que “a internet é outro fator que expandiu a bruxaria muito além de suas fontes esotéricas. Uma das reais surpresas da década de 1980 foi a emergência de uma forte conexão entre bruxos, alta tecnologia e cultura computacional” (p. 221).

Segundo os autores, assim como ocorreu com outras minorias, sites e fóruns consolidaram o intercâmbio de experiências e aproximaram pessoas adeptas da bruxaria hoje. Tanto que o fenômeno se expressa na máxima de M. Macha Nightmare: “a web se tornou a nossa igreja” (Witchcraft and the web, Toronto, 2001).

Alexander e Russell lembram-nos, por fim, que “o que não é científico em uma área da ciência em determinado período pode tornar-se científico em outro campo e em outra época” (p. 18). Dessa maneira, se a maior diferença entre magia e ciência hoje é que a primeira não poderia ser submetida aos testes da investigação empírica (p. 20), quando se trata de literatura e se acrescenta o ingrediente criativo, surgem, necessariamente, contaminações especulares. Assim, há muitas vezes um espectro da bruxa assombrando páginas da ficção científica. Afinal de contas, elas existem, ah, se existem.

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*Ana Rüsche é escritora e doutora em Letras pela Universidade de São Paulo (USP). Seu livro novo é A telepatia são os outros (Monomito, 2019), www.anarusche.com.

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