Home / Blog / A sociedade matriarcal em Duna e as Bene Gesserit

*Por Nathalia de Morais

Esse texto faz parte da série #DesvendandoDuna, em parceria com o site Delirium Nerd.

Os homens podem ditar as regras no Império, mas existem camadas tecidas por trás deles, com planos, esquemas e treinamentos desconhecidos. Tais estratagemas podem ser atribuídas ao grupo das Bene Gesserit, um grupo de mulheres que guarda segredos, visões e treinamentos cujo homem algum já sobreviveu – apenas um, e você irá conhecê-lo. Elas são uma das chaves política, religiosa e social existentes no Império. 

A Irmandade das Bene Gesserit 

Descritas como uma Irmandade exclusiva, suas integrantes treinam corpo e mente. Através de diversos anos são submetidas ao condicionamento mental para obter algo que podemos chamar de “dons” ou “poderes” psíquicos, entre outras habilidades que ultrapassam a condição humana. Por conta disso, são temidas, respeitadas e muitas de suas técnicas vistas como mágicas; e vale constar que a lealdade delas reside apenas entre elas, ninguém mais. Mesmo trabalhando com a Guilda, o Império e as Grandes Casas, as “bruxas” de Duna são leais apenas aos próprios princípios. 

Cena do filme Duna (1984)
As Bene Gesserit, na adaptação de 1984 de David Lynch

Elas foram funcionais durante vários séculos e a redoma protetora sempre foi o ar de misticismo envolvendo seus feitos. As Bene Gesserit selecionam seres humanos para o programa, pois nem toda mulher pode adentrar a Irmandade. E um de seus planos é o de trazer ao mundo o “Kwisatz Haderach”, ou seja, a pessoa capaz de estar em muitos lugares ao mesmo tempo. Elas, portanto, procuram alguém com artifícios mentais que possam ser usados em seu favor. Mas seu Kwisatz, Paul Atreides, tem outros planos. 

Em linhas mais tradicionais, o grupo secreto conspirou para o nascimento de um Mentat elevado. Mentat, por sua vez, como descreve o dicionário de Duna, é uma classe imperial treinada nos propósitos de realizar supremos atos de lógica. Simplificando: computadores humanos. Mas nem todo plano segue linha reta, e o das Bene Gesserit tropeçam em personagens como lady Jéssica e duque Leto. Elas devem ter percebido que sua profecia estava correndo risco quando Jéssica decidiu, sozinha, reprogramar seus genes para dar um filho homem ao duque; contrariando suas ordens de ter uma menina. 

Lady Jéssica, o princípio da mudança 

Rebecca Ferguson como lady Jéssica

Das mulheres centrais pertencentes ao grupo, podemos destacar lady Jéssica, a mulher que o duque Leto tomou como sua e, por amor, nunca casou com ninguém ou sequer tocou outra. Aliás, esse é outro método das Gesserit: introduzir uma das suas em cada uma das Grande Casas. Extraído em linhas tortas dos livros, “uma Reverenda Mãe, posição de poder entre as Bene Gesserit, deve combinar a sedução de uma cortesã, com a majestade de uma Deusa Virgem, mantendo essa dualidade pelo tempo que sua juventude conseguisse aguentar. Pois quando a juventude e a beleza tiverem ido embora, ela vai descobrir que o lugar no meio de ambos, antes ocupado pela tensão, tornou-se uma primavera de sagacidade e desenvoltura.

Contudo, mesmo que ganhasse a alcunha de “concubina”, lady Jéssica era uma Gesserit treinada, que entregou para Leto um herdeiro homem, capaz de ser treinado nos preceitos da Irmandade. Ele foi o único homem que sobreviveu à prova imposta por elas, na qual tantos outros morreram ao tentar. Jéssica, eventualmente, torna-se central para a trama de Duna.

Além disso, é ela quem muda o desenrolar dos fios. Ao proteger seu filho, o encaminha para Arrakis e usa de seu condicionamento mental com o único propósito de manter Paul vivo. Ele e a criança em seu ventre são figuras importantes para os caminhos de Duna. Jéssica também foi treinada pela Suprema Reverenda Madre, no intuito de conduzir o duque Leto e suas decisões. Mas algo não estava nos planos daquele grupo: que ambos fossem parte de um amor verdadeiro e juntos tornaram-se uma força a ser respeitada. Ninguém ousava colocar as mãos nela, pois o duque os eliminaria na mesma hora. 

O casal lady Jéssica e duque Leto, na adaptação de 2021 de Denis Villeneuve

Na contramão, a própria lady conseguiria se defender dos inimigos. O treinamento recebido foi repassado para Paul Atreides com minúcia. Ele tinha as visões, o corpo e a mente para fazer a diferença no mundo; mas nunca teria conquistado seus objetivos sem a presença da mãe, o orientando desde criança. Considere que no Universo de Duna, a filosofia está impressa em cada página. A construção do mundo foi delicadamente moldada, de tal forma que uma trama esconde outra. 

E usualmente, as Gesserit ou “as bruxas” estão por trás delas. Uma comparação mitológica seria com as Moiras dos contos gregos, responsáveis pela vida com suas costuras. A Irmandade faz algo parecido, porém falho. Ao contrário das Moiras, elas não são imortais ou sujeitas ao perfeccionismo. Seus planos possuem algumas falhas e outros triunfos pelo caminho, mas a paciência é uma virtude dominada por essa união de mulheres letais. 

O matriarcado e as mulheres principais em Duna

Paul passa por um teste das Bene Gesserit

O matriarcado encontra lugar em Duna. Seja através do papel de lady Jéssica, na coragem e sangue forte de Chani, nos poderes inconcebíveis de Alia, nas tramas das Madres, ou no papel de Irulan, um peão sobrevivente. 

Muitos podem pensar que ao embarcar na cabeça de Herbert vão encontrar apenas um grande Messias e seus homens, porém são as mulheres ao redor que mudam a rota do destino. Foi mencionado um condicionamento e este é simples de explicar, mas não de sobreviver: “as bruxas” são treinadas para avaliar comportamentos, análise do sujeito humano, estudo histórico, filosofias, idiomas, o controle do corpo, a proteção do mesmo e o valor do ataque. 

Elas ainda conseguem convencer pessoas ao redor usando nada mais do que “a Voz”, uma espécie de comando utilizado quando conseguem dados suficientes sobre a pessoa que estudam. E isso pode acontecer numa fração de minutos. Todavia, um dos métodos mais brutos de controlar uma Gesserit é o de usar amarras em suas bocas, mas acabam esquecendo que elas sabem usar o ambiente e o corpo em seu favor. 

Também é Jéssica a responsável por uma das maiores transformações no primeiro livro de Duna e sua estirpe, nas sequências. Por isso, nunca subestime uma mulher bem treinada que sabe usar uma dagacris (arma do mundo usada apenas nas mãos de pessoas capacitadas). 

A dagacris é um artefato sagrado dos fremen de Arrakis. São constituídas dos dentes dos vermes da areia. Possuem forma instável e estável. Enquanto a primeira forma necessita do calor humano para não se desintegrar, a segunda é feita para o armazenamento, com cerca de vinte centímetros. 

O feminino e todas as suas nuances 

A atriz Zendaya como Chani

Contudo, nas obras de Duna, o feminino não é apenas composto de tramas e planos de controle. Existe a mesma vulnerabilidade concedida aos homens. Como, por exemplo, Chani, com seus cabelos ao vento e sua sagacidade implacável. A fremen é uma das principais personagens da história e sem ela, Paul jamais teria se adaptado ao mundo desértico. 

Temos igualmente as memórias de um Leto que tomava vida como um homem apaixonado na companhia de Jéssica, e um duque letal na frente dos demais. Há, portanto, uma sensibilidade mas nunca uma submissão. Uma mulher criada por Bene Gesserits ou pelos fremen, nunca se submete. Ela sabe tanto a hora de silenciar quanto a de agir. Também existem outras figuras femininas vitais para o andar da trama, mas isso será revisto conforme o leitor curioso adentrar o mundo de Duna. Apenas guardem esse nome: Alia das Facas. 

Além do mais, a ascensão de Paul foi possível apenas porque as Bene Gesserit implantaram uma Missionária para Arrakis, que foi a responsável pela semente da lenda. É possível que elas tenham sido as encarregadas por espalhar o mito da “voz do mundo exterior”, que chegou ao ápice com Paul Atreides. Por trás de tantos homens poderosos, como a Guilda Espacial, o Imperador e os homens fremen, existem vértebras, ossos e sua construção: as mulheres de Duna. Repletas de estratagemas, seduções e a capacidade inata de amar e proteger o que é seu. 

Nesse universo de Duna não existe um grupo composto por personagens que são puramente bons ou maus. Não há também espaço para a perfeição. Ninguém é isento de falhas, desde o profeta até às feiticeiras. Trata-se de uma trama cinza. E no cinza vivem as mulheres; de toda a sorte, de todas as religiões e de todos os esforços, lutas e sacrifícios.


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* Nathalia de Morais é produtora de conteúdo, editora no Delirium Nerd, apaixonada por narrativas de ficção e mundos fantásticos. Dorme com um livro na cabeceira, e ama analisar obras da cultura pop através das mais variadas perspectivas.

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