Home / Blog / Uma nova psico-história: Previsões para a adaptação de Fundação produzida pela Apple TV+

*Por André Cáceres

Em 1966, o prêmio Hugo, conferido anualmente a obras de ficção científica e fantasia, elegeu a categoria especial de “Melhor Saga de Todos os Tempos”. Isaac Asimov saiu vencedor com sua Fundação, superando J.R.R. Tolkien, Robert Heinlein, Edgar Rice Burroughs e E.E. “Doc” Smith. Seria de se imaginar que a Fundação logo ganharia um público maior pelo cinema ou pela televisão, mas isso não aconteceu.

O Senhor dos Anéis virou animação em rotoscopia em 1978 e filme live-action em 2001; contos de Robert Heinlein compreendidos na saga Future History já haviam sido adaptados para o rádio e a TV nos anos 1950; John Carter estrelou seu filme em 2012; e Lensman inspirou um anime em 1984. Todos os indicados, com maior ou menor grau de sucesso, ganharam versões audiovisuais, exceto justamente a saga premiada. Pelo menos até a próxima sexta-feira.

No dia 24 de setembro de 2021, estreia na plataforma de streaming Apple TV+ a série Fundação, inspirada nos livros de Asimov. A despeito da enorme expectativa, sabe-se pouco sobre como será a criação de David S. Goyer e Josh Freedman. Isso não nos impede, é claro, de bancar os psico-historiadores dos livros e arriscar algumas previsões com base no que os trailers revelam. Mas antes vejamos o que é exatamente essa aclamada obra e por que ela é tão difícil de ser filmada.

O poder de uma ideia

Ilustração retratando o personagem Hari Seldon feita por Michael Whelan e que é capa do livro Fundação.

A Fundação consiste em sete partes: uma trilogia – cujo primeiro livro reúne contos escritos entre 1942 e 1950, e os demais foram publicados em 1952 e 1953 – e outros quatro romances, sendo duas sequências e duas prequelas, lançados entre 1982 e 1993, expandindo a trama e a conectando a outras obras de Asimov. Após sua morte, diversos autores chegaram a publicar narrativas, autorizadas ou não, nesse universo.

Na Fundação, Asimov imagina um império que se espraia por 25 milhões de planetas e domina quase toda a Via Láctea. É impensável para seus habitantes que tamanho poderio corre algum risco, mas é justamente essa a conclusão do cientista Hari Seldon, espécie de alter ego de Asimov. Ele lançou as bases da psico-história, definida no romance como “o ramo da matemática que trata das reações dos conglomerados humanos a estímulos sociais e econômicos fixos”. Grosso modo, uma mescla de disciplinas exatas e humanas para prever o futuro.

Levando em conta que Trantor, capital e sede administrativa do Império, com seus 40 bilhões de habitantes, seria cada vez mais dependente dos suprimentos vindos de planetas agrícolas, e que a centralização do poder e a ineficaz burocracia estatal tornaria um golpe atrativo em um ambiente político de rixas entre famílias aristocráticas, Seldon calcula que o impensável levará cerca de 300 anos para ocorrer e que o Império está inevitavelmente fadado ao colapso.

É claro que tal inferência, por mais comprovada matematicamente que seja, não é bem aceita pelos poderosos, em um misto de negacionismo, ignorância e oportunismo político. Seldon é acusado de alarmista e traidor, num processo de difamação semelhante ao que sofrem cientistas contemporâneos que alertam para crises sanitárias e climáticas.

Em meio à perseguição, Seldon cria um plano de contingência. A queda do Império Galáctico (inspirada na derrocada do Império Romano conforme narrada pelo historiador Edward Gibbon) é inevitável, mas a barbárie que se seguirá a ela pode ser atenuada. Seldon acredita ser possível reduzir o interregno de 30 mil anos, conforme previsto, para um período de mil anos de trevas até a ascensão de um novo e mais flexível império.

Para auxiliá-lo em seu plano, o jovem e promissor estudante Gaal Dornick une-se a outros psico-historiadores para criar a Fundação, um mundo discreto e aparentemente inofensivo no estéril e periférico planeta Terminus, com a missão de fazer uma enciclopédia para preservar o conhecimento humano. Dali emergirá o improvável império pensado por Seldon – não sem enfrentar diversas crises já antevistas, mas que seus habitantes devem encarar sem informações privilegiadas, pois as previsões da psico-história só funcionam quando os agentes envolvidos não têm acesso aos seus resultados.

Desafios da adaptação

Teaser da série Fundação para a Apple TV+

A premissa de Fundação é o que a torna tão épica e brilhante, mas também o que impõe o maior obstáculo para adaptá-la. Seldon e Dornick são o mais próximo do que se pode chamar de protagonistas da obra, mas eles aparecem vivos apenas nas 36 páginas iniciais da saga (ao menos na saudosa edição da Aleph de 2009), dando lugar a outros personagens em episódios subsequentes já do primeiro livro. Como a trama compreende um período de séculos, diferentes figuras se alternam como protagonistas dos conflitos que vão se sucedendo sempre que uma das recorrentes crises previstas por Seldon ocorre.

Na literatura, a leitura episódica da Fundação se mantém coerente sem problemas, mas trocar de protagonista a cada capítulo na TV pode ser um empecilho para a criação de um vínculo entre espectador e trama. Séries se apoiam bastante na identificação com personagens (para o bem ou para o mal, como nos mostram Tony Soprano, Don Draper e Walter White) para seguir adiante. Até mesmo Ned Stark, inicialmente caracterizado como protagonista pelo leitor das Crônicas de Gelo e Fogo ou pelo espectador de Game of Thrones, só tem sua impactante morte revelada ao final do primeiro livro de George R.R. Martin e, consequentemente, no episódio final da primeira temporada da série da HBO.

A partir do que se nota nos trailers divulgados pela Apple TV+ e pelas fichas técnicas dos dez capítulos de Fundação, podemos deduzir que, muito provavelmente, os arcos narrativos de alguns personagens serão estendidos, muito em função dessa necessidade de oferecer ao público rostos familiares aos quais se ancorar. Tanto Jared Harris quanto Lou Llobell, intérpretes de Seldon e Dornick respectivamente, estarão presentes durante toda a primeira temporada. É possível que suas origens e motivações sejam mais bem exploradas na série, com elementos das prequelas Prelúdio à Fundação (1988) e Origens da Fundação (1993), além de novas contribuições dos roteiristas, narrando simultaneamente tempos distintos.

Isso porque Salvor Hardin, um dos primeiros governantes de Terminus, também aparecerá ao longo de toda a primeira temporada da série, sendo que, nos livros, ele assume seu posto 50 anos após a época de Seldon. Grande frasista, Hardin é um dos personagens mais cativantes de todo o panteão de Asimov e um hábil negociador, salvando a Fundação de conflitos com planetas mais abastados e militarmente superiores por meio de diplomacia, ardis e estratagemas, fazendo jus ao seu memorável lema: “A violência é o último refúgio do incompetente”.

Diversidade em Terminus

A atriz Lou Llobell no papel de Gaal Dornick, originalmente um persongagem masculino.

Hardin e Dornick nos levam a outra questão da adaptação da Apple TV+. Tanto os trailers quanto a escolha do elenco deixam evidente que haverá um esforço consciente e bem-vindo para ampliar a representatividade dos livros, alterando o aspecto físico e o gênero de personagens relevantes. As protagonistas dos livros 2 e 3 da trilogia original, Fundação e Império e Segunda Fundação, são mulheres: Bayta Darell (que aparecerá em três episódios da primeira temporada com o nome Bayla e vivida por Jade Harrison) e sua neta, Arkady Darell. No entanto, isso não isenta Asimov de ter escrito um universo repleto de homens brancos frequentemente machistas. Nos livros da Fundação, as fortes e carismáticas mulheres da família Darell são a exceção que confirma a regra, e a série tenta mitigar esse problema por meio de um casting que se aproveita dos nomes ambissexuais de Asimov e preza pela diversidade. É por isso que Hardin e Dornick, dois homens brancos nos livros, são interpretados na série pelas atrizes negras Lou Llobell e Leah Harvey.

A adaptação da Apple TV+ trará personagens que não figuram nos livros. Os que mais chamam atenção nos trailers – e levantam hipóteses dos fãs – são um trio enigmática e sugestivamente batizado de Brother Dawn, Brother Day e Brother Dusk, vividos por Lee Pace, Cassian Bilton e Terrence Mann respectivamente, mas não se sabe que função narrativa eles cumprirão.

Uma nova psico-história

O Bom Doutor, Isaac Asimov.

Algo que também se pode inferir a partir do material de divulgação é que toda a parte visual estará no patamar das grandes produções televisivas atuais, algo até pouco tempo inexequível. A narrativa fragmentada não é, afinal, o único desafio para adaptar a Fundação. Épicos espaciais, de modo geral, sempre foram difíceis de filmar – vide Duna, que mesmo sem grandes cenas no espaço sempre foi um cemitério de adaptações, pelo menos até este ano, espera-se.

Embora a Fundação seja a última dentre as sagas indicadas ao Hugo em 1966 a ganhar sua versão audiovisual, esta não é a primeira tentativa de levá-la às telas. A New Line Cinema já havia comprado os direitos para filmá-la, mas quando se deparou com os obstáculos impostos por uma produção desse porte, decidiu trocar a ficção científica pela fantasia e viabilizou a trilogia O Senhor dos Anéis, dirigida por Peter Jackson. O cineasta e produtor Roland Emmerich, de Independence Day, tentou se debruçar sobre a Fundação em 2010 e acabou desistindo do projeto. Em 2014, Jonathan Nolan se aventurou em mais uma empreitada frustrada antes de decidir desenvolver Westworld.

Numa nova era da TV com mais orçamento, a Fundação poderá enfim arrebanhar novos fãs. Nada mais justo em tempos nos quais empresas de tecnologia, por meio da captação de dados, conseguem prever o comportamento de massas e influenciá-las para comprar tal produto ou votar em tal candidato, tornando a saga ainda mais relevante hoje do que quando foi concebida. Afinal, quando os cidadãos de Terminus descobrem a existência de uma Segunda Fundação, que regeria seus destinos por meio da psico-história, eles se revoltam contra esses pretensos guias que tolhem seu livre-arbítrio. Uma boa alegoria para a vigilância tecnológica de nossa época e mais uma previsão acertada de Hari Seldon… quer dizer, Isaac Asimov.


– Compre o primeiro volume da saga Fundação e leia antes da série.

*André Cáceres é jornalista e escritor. Autor de Cela 108 (Multifoco, 2015) e coautor de Corações de Asfalto (Patuá, 2018), escreve sobre literatura para o jornal O Estado de S. Paulo.

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