Home / Blog / As influências de Fundação no universo pop

*Por Fernando Barone

Não é à toa que o nome Isaac Asimov é reconhecível em todos os cantos: a extensa obra do Bom Doutor é referência tanto na literatura, quanto fora dela, influenciando a ciência, a cultura e o entretenimento dos últimos 70 anos.

O legado do escritor é tão intrínseco à ficção científica, que boa parte de sua influência e referências estão enterradas no DNA de diversas obras e formatos — mais de forma sutil, do que em citações diretas. Mas abaixo, separei alguns dos ecos mais identificáveis que mostram como Fundação, uma das maiores sagas do sci-fi já escritas, influenciou dentro e fora da cultura pop:

Star Wars

Coruscant, o planeta-capital de uma galáxia muito, muito distante foi inspirado na capital do Império Galáctico de Fundação, Trantor (Imagem: Reprodução)

Pode parecer simples à primeira vista, mas as referências que George Lucas fez a Fundação na sua saga cinematográfica são muitas. Para começar, o planeta-capital de Coruscant é uma clara analogia a Trantor, capital do Império Galáctico (olha mais um aí!) na obra de Asimov — que também é o centro de uma galáxia habitada por seres humanos de ponta a ponta. Lucas, inclusive, até batizou um dos Mundos do Núcleo com este nome.

Além disso, na obra de Asimov temos o Mulo, um dos grandes vilões da história, e a Segunda Fundação. Tanto esta instituição quanto o antagonista possuem poderes psíquicos que os permitem controlar pessoas e objetos com suas mentes… como diria o mestre Yoda, “alguma coisa te lembrar isto faz?”. Já outros paralelos não tão fortes podem ser encontrados em alguns personagens das duas histórias, como é o caso de Hober Mallow, comerciante e canalha de Terminus, e Han Solo, contrabandista e canalha de Corellia, ou entre Leia Organa e Bayta Darell, ambas personagens femininas fortes que confrontam diretamente os vilões de suas histórias.

Hober Mallow e Han Solo: canalhas separados por uma galáxia (Imagens: Reprodução e divulgação)

É claro que as diferenças entre as sagas são enormes, a começar com a duração cronológica de cada uma, os temas nos quais seus autores focam e a quantidade de personagens que passam pela trama. O próprio Asimov já falou sobre isso em diversas ocasiões, como numa entrevista em um talk show em 1989:

“Na verdade, se você assistir a esses filmes, Star Wars e suas sequências, há uma certa quantidade de coisas que vieram dos meus livros da Fundação. Mas, ora, há uma certa quantidade de coisas dos meus livros da Fundação que vieram de Declínio e queda do império romano, de Edward Gibbon. Então, o quanto você quer voltar? É assim que as coisas funcionam”.

Marvel e DC

Um dos personagens mais inteligentes do universo Marvel, o Sr. Fantástico já tentou recriar a psico-história de Fundação em sua própria realidade (Imagem: Reprodução)

Tirando as influências mais óbvias da obra do Bom Doutor no universo Marvel, há uma referência direta durante a megassaga dos quadrinhos Guerra Civil. Na revista Fantastic Four 542, Reed Richards, o Sr. Fantástico, comenta que tentou desenvolver a psico-história por conta própria após ler a saga da Fundação. Já na DC Comics, mais especificamente nas histórias da Legião dos Super-Heróis, existe o sistema Trantor, onde está o Mundo de Weber, planeta artificial parecido com a Estrela da Morte, construído para ser o centro administrativo da União dos Planetas.

O guia do mochileiro das galáxias

Nem mesmo “O Guia do Mochileiro das Galáxias”, com o seu humor peculiar, deixou de prestar uma homenagem à saga de Asimov, ao falar da Enciclopédia Galáctica: “seca” e vende pouco (Imagem: Reprodução)

Asimov foi tão importante para a história da ficção científica que é dito que os autores que vieram depois dele estão divididos entre os que seguem seu estilo e os que tentam conscientemente se afastar dele. Enquanto Douglas Adams certamente se enquadra no segundo grupo, ele também fez homenagens à saga da Fundação na sua própria série literária icônica, O guia do mochileiro das galáxias.

Em uma das passagens referentes ao guia que dá título à saga, Adams escreve que ele não passa de uma imitação da Enciclopédia Galáctica (passagens da enciclopédia abrem os capítulos de Fundação) e que esta existe no universo do livro, mas é um tanto “seca” e, consequentemente, vende menos cópias. Além disso, vemos novamente um planeta imperial central urbanizado ao extremo, Helior (descrito como um inferno burocrático e um pesadelo de logística ), além da imortalidade do androide paranoide Marvin, que reflete um arco da saga de Asimov.

Elon Musk

Um dos homens mais conhecidos da atual revolução tecnológica, Musk se inspirou no trabalho de Asimov para guiar a sua carreira (Foto: Reprodução)

O CEO da Tesla, fundador da SpaceX, bilionário filantropo e Tony Stark da vida real já declarou que foi influenciado pelas obras de grandes nomes da ficção científica, como Isaac Asimov, Douglas Adams e Robert A. Heilein, colocando a trilogia da Fundação como uma das obras que tiveram maior impacto em seu modo de pensar e orientar sua carreira. Numa entrevista ao jornal The Guardian em 2013, ele disse:

“As lições da história sugerem que a civilização se move em ciclos. É possível verificar isto indo bem longe — os babilônios, sumérios, seguidos pelos egípcios, romanos, a China. Estamos obviamente num ciclo de avanço neste momento, e espero que continuemos assim. Mas talvez não continue. Podem ocorrer uma série de eventos que causem o declínio do nível tecnológico. Dado que esta é a primeira vez em 4.5 bilhões de anos que é possível que a humanidade estenda a vida para além da Terra, parece que seria sábio agir enquanto a janela está aberta e não contar com a possibilidade de ela ficar aberta por um longo tempo”.

Rumo ao espaço profundo, o Tesla Roadster leva consigo uma cópia digital da Trilogia de Fundação (Foto: Reprodução)

Quando o Tesla Roadster foi enviado ao espaço para testar o foguete Falcon Heavy Rocket da SpaceX, um dos itens colocados no carro foi um disco contendo a trilogia da Fundação.

Bônus: Paul Krugman, vencedor do Nobel Memorial em Ciências Econômicas em 2008, credita a saga da Fundação como a obra que direcionou sua carreira para a economia, por ser a coisa mais próxima existente da psico-história, ciência criada por Hari Seldon na saga galáctica.

Deep Purple

Para quem achava que Fundação não podia ir mais além da própria literatura, o grupo britânico liderado por Ian Gillan provou o contrário nos palcos (Foto: Reprodução)

Aqui não estamos dentro do mundo “pop”, mas vale muito o destaque. Numa sessão de dúvidas do seu site, o cantor da famosa banda de rock britânica, Ian Gillan, confirmou que a canção “The Mule” foi inspirada no vilão de Fundação. Ele escreve: “Sim, The Mule foi inspirada por Asimov. Já faz um tempo, mas estou certo de que você fez a conexão correta… Asimov era leitura obrigatória nos anos 1960”.

A letra completa da música é bem curtinha (em tradução livre):

“Ninguém vê as coisas que você faz / Porque eu fico na sua frente / Mas você me guia o tempo todo / Põe o mal na minha mente / Costumava cantar e fazer minhas preces / Viver minha vida sem preocupações / Agora me tornei um tolo / Porque dei ouvidos ao Mulo / Como eu posso mudar quando minha mente é amiga / De um Lúcifer escondido no chão / Apenas mais um escravo para o Mulo”.

Tudo que tem robôs

Asimov não criou os robôs, mas mudou para sempre a forma como nos relacionamos com eles (Foto: Reprodução)

Isaac Asimov pode não ter inventado o conceito do robô, mas certamente definiu como os enxergamos hoje em dia. Suas três leis da robótica foram incorporadas não só em virtualmente todas as obras de ficção científica dos últimos setenta anos, como também na vida real, já que cientistas, engenheiros e programadores internalizaram essas diretrizes e as usam como guia para construir nosso futuro automatizado. Suas projeções de tecnologias e de disciplinas que poderiam surgir do advento do robô inteligente não estão longe do que o panorama atual nos apresenta, mas ainda não chegamos nem perto do que a mente inventiva do Bom Doutor nos apresentou.

A escrita pode não ter sido linear e pode ter se desviado para outros tópicos em alguns pontos, mas o que Asimov teceu ao longo das décadas em seus livros foi um panorama que parte de Eu, Robô para seguir pela trilogia dos Robôs (As cavernas de açoO sol desveladoOs robôs da alvorada), a trilogia do Império (Pedra no céuPoeira de estrelasAs correntes do espaço) e culminar na saga Fundação, criando um universo que apresenta um rumo para a humanidade, guiando nosso pensamento futurista não quando olhamos para as estrelas, mas sim para dentro de nós mesmos.

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*Fernando Barone é escritor, quadrinista e tradutor. Ele também envia periodicamente uma newsletter, a Banana Radioativa.

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